JORNALISMO-GINCANASaiba quando é bom e quando é ruim.Em primeiro lugar, reivindico a paternidade sobre a expressão "Jornalismo-gincana" para caracterizar todo conjunto de conteúdos (reportagens, notas, infográficos, fotos etc.) que estejam vinculados a uma cobertura PROMOCIONAL. É o caso, por exemplo, do concurso de beleza Rainha das Piscinas, que era promovido pela Companhia Jornalística Caldas Júnior e foi minha segunda atividade profissional no Jornalismo. A primeira: Taça Ouro e Prata - Campeonato de Futebol Amador. Era patrocinada pelo cigarro Ouro e Prata, um matarrato que nem os boleiros da época (início da década de 70) fumavam. Regressando ao hoje próximo, é jornalismo-gincana, dentro deste conceito tão pessoal meu, o Garota Verão. O promotor de um evento assim qualificado viabiliza um espetáculo de participação popular que ultrapassa os índices de audiência e de leitura de seus veículos. Não precisam os jornalistas de uma redação salvar o mundo em todas as páginas do jornal impresso. É imperioso produzir uma mistura de temas "pesados" e "leves", fazer jornalismo investigativo profundo que incomoda seus alvos ao lado de espaços para horóscopo e palavras cruzadas, pois insistentes leitores de ambos também os há. Qual a receita para esta "culinária editorial"? É a do ponto-de-calda. (Leva hífen com a nova ortografia?) É aqui que o editor competente sobressai, mostrando que não é apenas um tapador dos buracos não preenchidos pela publicidade. A receita permanece disponível para todos. Mas é a doceira experiente quem melhor mergulha a colher de pau naquela calda quente, retira, examina o fio que escorre e decreta: "Está no ponto!". Ou não está... O bom jornalismo-gincana é como os concursos Rainha das Piscinas e Garota Verão (por favor, não me venham com discursos sobre a exposição/exploração da mulher nestes certamentes de beleza). A Maratona de Porto Alegre é outro destaque e a promoção na edição de domingo (24/05) estava impecável em termos de conteúdo e visual. Já a cobertura, na edição de segunda-feira (25/05) esteve modesta em relação ao porte do evento. São exemplos do bom jornalismo-gincana e a expressão, repito, não é depreciativa. É neutra. Mas vamos agora ao mau jornalismo-gincana.É representado, no mesmo jornal, pelo equívoco editorial da criação da série 3Projetos para o Rio Grande. Para quem não acompanha, terminou na sexta-feira (29/05) a publicação de cupons que possibilitam aos leitores "indicar qual projeto consideram prioritário ao desenvolvimento do Rio Grande do Sul". Além do cupom, votos também por telefone e pela internet. Quinze projetos. Cinco beneficiando a Região Metropolitana, dez para melhorias no Interior do Estado. Metrô de Porto Alegre, novo presídio na Capital, ponte internacional Brasil/Argentina, hospital regional em Santa Maria, aeroporto regional na Serra Gaúcha, estas são algumas das alternativas. E agora, o xis da questão: "As duas obras do Interior e a da Região Metropolitana com mais votos terão suas execuções fiscalizadas até a finalização". Vamos por partes. Sigam-me. (Este Sigam-me é uma apropriação ainda não autorizada por Wanderley Soares, colunista de assuntos de segurança do jornal O Sul, da sua forma peculiar de remeter o leitor para o parágrafo seguinte.) Nada contra os projetos. São, todos, importantes. Imprescindíveis, talvez. E a cobertura jornalística apresentado cada projeto também está muito boa. As minhas questões: a) o jornal abdicou da fiscalização das demais doze e não cumprirá com seu papel social de forma integral? b) se não abdicou, os espaços destinados aos outros doze projetos sempre serão menores do que os três escolhidos pelo "voto popular", o que poderia caracterizar um engessamento prévio das matérias futuras, já que elas "não teriam sido as eleitas pela opinião pública"? c) será que não pensaram os mentores desta promoção que geraram ampla expectativa/mobilização entre as populações diretamente beneficiadas pelas obras e, portanto, também precisarão contar com muito desapontamento futuro? d) onde está escrito que a realização de uma importante obra com recursos públicos (municipais, estaduais, federais, não importa) está condicionada à pressão numérica de manifestações populares, por mais legítimas que sejam, e não a um plano estratégico de alocação de recursos proposto e executado por quem de direito, ou seja, o Poder Executivo? e) definidas as três prioridades para acompanhamento pela redação, até o final da obra, não estará instaurada uma queda-de-braço (tem hífem?) entre o jornal e o governo (faz-não faço, se não faz é birra; se faz, e rápido, é porque o povo falou via jornal e este passa a ser o caminho futuro...) e qual o resultado possível da mesma? Em síntese, respeitando opiniões divergentes que possam levar-me a entendimento diverso do apresentado até agora, e desde já abrindo espaço para o contraditório, considero que a série 3Projetos para o Rio Grande é um desserviço ao Jornalismo e ao Estado. São boas as propostas para obras. As matérias produzidas sobre elas também. A concepção promocional é que se apresenta equivocada na origem. É o que eu penso. O que eu penso, escrevo. E assino embaixo. Mário Villas-Bôas da Rocha. |